"É duro viver para alguém que não me conhece"

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"Às vezes ponho-me a pensar: como era a nossa vida antes de ela adoecer? Já não me lembro. Sei que ela era um bocadinho teimosa, ralhava muito comigo, e eu calava-me para não arranjar conflitos. Era uma mulher muito inteligente, muito trabalhadora, muito forte."

José Imaginário Monteiro tem 79 anos e há 16 que cuida da mulher, Maria Augusta, doente de Alzheimer. Há 16 anos que não sai de casa, a não ser para ir, de passo ligeiro e coração apertado, à mercearia mais próxima, aproveitando a presença da empregada. E é tudo. Nunca mais foi a parte nenhuma. Nem a casa dos filhos, nem às festas dos netos, nem aos Natais da família. Nunca mais foi à campa dos pais, nunca mais viu os amigos de Santarém. Mas está convicto da sua missão: "Tenho a certeza de que, se a tivéssemos metido num lar, já me tinha morrido."

A dedicação de Imaginário Monteiro é rara. Há 16 anos que lhe mede a temperatura três vezes ao dia, há 16 anos que anota tudo num mapa: temperatura, nível de glicemia, horas a que urina, dias a que defeca. Folhas e folhas de valores que o sossegam sobre a saúde da sua Augusta. Folhas e folhas de números que lhe justificam a existência: "Ela não se queixa, não é? E ou bem que se faz as coisas como deve ser, ou então não se faz." E Imaginário Monteiro faz. Só faz. É ela a sua vida. Mais nada.

Todos os dias, a rotina repete-se. Acorda às seis da manhã para lhe dar um leite com chocolate ou um iogurte. A meio da manhã, uma fruta passada. As refeições obedecem a um ritmo certo, porque Maria Augusta, como muitos doentes de Alzheimer, sofre de diabetes. Mas também de Parkinson e epilepsia. Na lista de afazeres, além das medições, da medicação e das mudas de fraldas, Imaginário Monteiro nunca esquece o creme hidratante, única forma de manter a pele da doente sem uma escara. Assim como não deixa de lhe ligar a televisão: "Ligo sempre, para ela se distrair. Não sei se distrai ou não. Nem sei se ela a vê. Assim como não sei se me conhece. O médico diz que não. A gente sabe lá. Seja como for, falo sempre com ela."

José e Maria Augusta Imaginário Monteiro estão casados há 55 anos. Um amor indestrutível, do qual resultaram três filhos, oito netos. "Estamos muito agarrados um ao outro. Gosto muito dela. Muito." Tanto que não suporta imaginar que, um dia, pode ficar só: "Ai... Até sonho com isso! Como é que eu vou viver assim, sozinho?" Como se não estivesse já, há 16 anos, sozinho.

O medo da perda, o medo do vazio subsequente são comuns a quase todos os cuidadores de doentes com Alzheimer. Tanta abnegação no presente faz recear o nada no futuro. O livro Manual do Cuidador, lançado no Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer (21 de Setembro) pela Associação Portuguesa de Familiares e Amigos do Doente de Alzheimer (APFADA) tem um capítulo dedicado ao luto, que refere justamente esses sentimentos contraditórios: "Pode ter de se confrontar com depressão, com culpabilidade, com cólera ou com solidão."

É a solidão e a tristeza que Imaginário Monteiro mais teme. Teme, sobretudo, não suportar a dor, do mesmo modo que um cirurgião amigo não suportou, há coisa de um mês: "A mulher tinha Alzheimer e morreu, em casa. Ele vestiu o pijama, deitou-se ao lado dela, abraçou-a e, lavado em lágrimas, deu um tiro na cabeça."

Carlos Leão, 72 anos, pensa de outra maneira. Ou talvez não pense, que é uma boa táctica para não sentir. A mulher sofre de Alzheimer há sete anos. Começou por se esquecer do dia das consultas, depois perdeu-se, esquecia-se de quem telefonava, ignorava os recados que lhe deixavam. A consulta com um neurologista e alguns exames ditaram a sentença. Josefa estava a esquecer o mundo.

A evolução da doença tem sido lenta, em comparação com o caso de Maria Augusta Imaginário Monteiro. Josefa ainda caminha, diz algumas coisas, reconhece algumas pessoas. Passa os dias no Centro de Dia da APFADA. Das nove às três, entretém-se, enquanto o marido faz um ou outro trabalho. Depois, voltam para casa. Ele veste-a, despe-a, dá-lhe o comer à boca. Mas garante que não se vai abaixo. "O que hei-de fazer? Bater com a cabeça nas paredes? Claro que me custa. Ainda há bocado lhe perguntei se gostou da festa de aniversário que lhe fizeram ontem, na associação. Respondeu: 'Fizeram uma festa? Ah foi?' Isto custa. Mas a vida continua."

Como continua, entre quatro paredes, a de Imaginário Monteiro. Uma vida dedicada ao seu amor. "Vá, Gusta, engole a sopinha, filha, vá."

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